terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Entre a Dor e a Superação- Book review por Gonçalo Perry, Do livro de David Goggins



Book Review: “Can’t Hurt Me: Master Your Mind and Defy the Odds”

“O homem mais duro do planeta.” — Outside Magazine





Introdução e contexto biográfico

David Goggins é um  ex-militar das Forças Armadas dos Estados Unidos e atleta de ultra-resistência, é amplamente reconhecido como "o homem mais duro do planeta". 

A sua história é marcada por uma infância vivida num ambiente profundamente instável e abusivo na Paradise Road, East Amherst, New York.  Desde cedo o jovem David, a mãe e o irmão sofreram abusos físicos e psicológicos por parte do seu pai, que estava envolvido em atividades criminosas, incluindo administrar bares e prostituição, e era violento e alcoólatra. Para além destes abusos Goggins foi vítima de exploração infantil, onde era explorado pelo próprio pai nas suas pistas de patinagem, muitas vezes até de madrugada e mal alimentado ou sem comer.  A violência e os abusos aumentaram ao ponto da sua mãe decidir deixar o ambiente abusivo, fugindo com Goggins. 

Viveu em situação de pobreza, enfrentou racismo diariamente e ameaças de morte derivadas ao tom da sua pele e tinha graves dificuldades de aprendizagem. Apesar destes desafios, a mãe de David trabalhou incansavelmente, mantendo vários empregos para sustentar a família.  No entanto, a maior tragédia aconteceu quando o noivo da mãe, foi assassinado, deixando David à deriva na sua adolescência.

Passado alguns anos, vê-se a pesar 135 kg e a trabalhar num emprego sem futuro a pulverizar baratas. O Turning point aconteceu através de uma decisão radical, inspirada pelos Navy SEAL’s, ao ver um anúncio decidiu mudar o rumo da sua vida, o desafio auto-imposto parecia impossível, mas Goggins estabeleceu um compromisso inquebrável consigo mesmo e em apenas três meses perdeu 48kg e iniciou o treino militar mais exigente do mundo. Goggins foi o único homem a completar os três programas de elite das Forças Armadas Americanas (Navy SEALs, Army Rangers e Air Force Tactical Air Controller), tornou-se também ultramaratonista, triatleta, em que realizou feitos como correr 330 km sem parar em 39 horas, e recordista mundial de elevações ao fazer 4.000 elevações em 24 horas. 

Suportou três semanas infernais, o exaustivo treino de 130 horas, projetado para quebrar e destruir mentalmente os candidatos. Apesar de lesões e contratempos, incluindo fraturas por stress e pneumonia, David perseverou e formou-se à terceira tentativa. Sendo assim, a obra explora como transformar dor, fracasso e sofrimento em combustível para o crescimento pessoal.






Uma análise do trabalho

O livro gira em torno da jornada de autotransformação de Goggins e apresenta dez desafios práticos, fundamentados na disciplina e na responsabilidade radical. Sendo estes:

  • Estabelece comprometimento contigo mesmo
  • Assume responsabilidades
  • Enfrenta o desconforto 
  • Busca a excelência 
  • Visualiza o sucesso 
  • Remove limitações mentais 
  • Aumenta a autoconsciência 
  • Procura o crescimento contínuo 
  • Aprende com as falhas

Todo o livro reside no conceito de "calejar a mente" (callusing the mind). Tal como o nosso corpo ganha calos com o esforço físico, a mente fortalece-se ao enfrentar dificuldades repetidamente. Goggins argumenta que a sociedade moderna procura conforto imediato, mas o verdadeiro desenvolvimento ocorre através do sofrimento voluntário. Através do desconforto e sofrimento voluntário Goggins aprendeu e moldou uma mente inquebrável, uma mente blindada.

Um dos princípios mais marcantes é a "Regra dos 40%". Segundo o autor, o nosso cérebro autolimita-nos a nível físico e mental a apenas cerca de 40% da nossa capacidade total; os restantes 60% estão ocultos pela mente que tenta proteger-nos do desconforto. 

Outra ferramenta apresentada no livro é o "Pote dos Biscoitos" (Cookie Jar), uma metáfora para armazenar vitórias passadas e obstáculos superados, que servem de combustível motivacional em momentos de crise. Ou seja, quando o autor está em baixo, estimula-se e motiva-se a relembrar vitórias e feitos passados.

Outra ferramenta é o "Espelho da Responsabilidade" (Accountability Mirror), baseia-se numa prática de autocrítica radical onde o indivíduo confronta-se com as suas verdades, mesmo que duras, assim assume total responsabilidade pelos seus resultados, sem qualquer tipo de  vitimização. 



Análise crítica

A obra de David Goggins destaca-se pela sua abordagem direta e pragmática no que toca à motivação humana. Goggins traça uma distinção clara entre o prazer imediato (picos de dopamina de curta duração associados ao conforto) e a satisfação duradoura (resultante do esforço e disciplina). A sua filosofia desafia a chamada "hedonic treadmill", ou adaptação hedónica que sugere que o bem-estar sustentável não advém de reforços externos, mas sim de um sistema interno de autorregulação. Segundo Goggins o prazer imediato está associado a como referido anteriormente, picos de curta duração de dopamina, que dá prazer curto e momentâneo ao indivíduo, o que leva à necessidade de novas doses, tratando-se assim de uma “droga” devido ao curto período de atuação e êxtase paranormal. Por outro lado a satisfação duradoura advém do esforço, disciplina e superação, que gera uma sensação duradoura de competência e orgulho. Esta reforça o sentido de propósito e de identidade e mantém os níveis de bem estar psicológico estáveis, como referido anteriormente esta satisfação não advém de reforços externos, mas sim de um sistema interno de autorregulação.

Embora a sua abordagem possa parecer extrema, ela alinha-se com conceitos como o locus de controlo interno. O "Espelho da Responsabilidade" que Goggins propõe não é uma ferramenta de auto depreciação, mas sim um exercício de honestidade brutal, necessário para o nosso crescimento.

 A principal crítica que se pode fazer reside na intensidade do seu método, que pode ser interpretada como excessiva para pessoas com perfis menos resilientes. No entanto, a mensagem central é de empoderamento, Goggins afirma que ninguém nos vai salvar; o nosso progresso e sucesso, depende exclusivamente das nossas ações. Goggins demonstra que a verdadeira satisfação vem da dor transformada em conquista, e não do prazer imediato e assim oferece um contraponto importante e necessário à cultura do facilitismo.






Integração com temas da UC: Métodos de Intervenção e Desenvolvimento Organizacional

O trabalho de Goggins possui uma convergência teórica com os princípios do Desenvolvimento Organizacional especificamente no que diz respeito à motivação intrínseca e à criação de culturas de alta performance. A sua filosofia alinha-se de forma clara com a Teoria da Autodeterminação (Deci & Ryan), que postula que a motivação sólida e duradoura nasce da Autonomia e Competência. Goggins personifica esta autonomia radical e a busca incessante por competência através dos desafios a que ele se auto impõe, ou seja que o mesmo se obriga a realizar.

No contexto organizacional, a "Regra dos 40%" e a procura pelo desconforto estão intimamente ligadas com o estado de Flow (Csikszentmihalyi),  onde o desenvolvimento pessoal e profissional acontece na fronteira entre as capacidades existentes e os desafios propostos. Além disso, a mentalidade de Goggins exemplifica o Modelo PERMA de Seligman, focando-se no Achievement (Realização) e Meaning (Propósito) em detrimento de emoções positivas e superficiais. 

Para a gestão de RH e intervenção organizacional, a mensagem é: as organizações que fomentam disciplina, autonomia e os desafios equilibrados constroem um bem-estar mais sustentável do que aquelas que dependem apenas de "picos" de motivação extrínseca. O método PDCA (Plan-Do-Check-Act) é evidente na sua rotina diária de revisão e ajuste de objetivos, ao utilizar o "Espelho da Responsabilidade", usado assim como ferramenta de feedback e melhoria contínua  




Reflexão pessoal

Eu já tinha lido este livro, porém como trata-se de um dos meus livros preferidos e acredito no poder de mudança do conteúdo do mesmo, decidi trazer para a aula pois num mundo cada vez mais voltado para o conforto e a gratificação instantânea, senti a necessidade de compreender e mostrar os mecanismos da verdadeira resiliência mental.

A leitura deste livro foi verdadeiramente impactante, pois desconstruiu a crença de que o talento é inato. Ao longo do livro Goggins prova de forma convincente, que a resiliência mental, a que ele chama de "mente blindada", pode ser desenvolvida através de treino e prática. A ferramenta das "Verdades no Espelho" teve um grande impacto em mim. Apercebi-me de que, frequentemente,criamos narrativas de proteção para justificar os nossos insucessos e limitações.

A aplicação destes conceitos na minha futura prática profissional passa essencialmente, por reconhecer que a liderança começa com a autoliderança, ou seja o líder antes de tudo, deve saber liderar-se a si mesmo. 

A autoconsciência e a capacidade de gerir o desconforto são, a meu ver, competências cruciais para qualquer gestor que deseje inspirar as suas  equipas. Reconheço também que o verdadeiro sucesso na gestão de pessoas não reside em eliminar todos os obstáculos que a equipa enfrenta, mas em capacitá-la para superar esses obstáculos, através de um mindset de crescimento contínuo onde a falha é vista como uma oportunidade de desenvolvimento e aprendizagem, e não como um fracasso definitivo









Conclusão

"Can’t Hurt Me" é muito mais do que um relato de feitos físicos extraordinários; é um tratado sobre o potencial inexplorado da mente humana. David Goggins ensina-nos que a dor é inevitável, mas o sofrimento é uma escolha opcional que pode ser canalizada para a transformação.

A mensagem deste livro é intemporal: "Quando pensares que já deste tudo, ainda tens 60% por descobrir". 

No contexto organizacional e da vida, a obra relembra-nos que a verdadeira liderança e o bem-estar não se encontram na zona de conforto e que a disciplina, a responsabilidade e a recusa em aceitar a mediocridade são as chaves para desbloquear o nosso verdadeiro potencial. Sendo assim, Goggins desafia-nos a deixar de ser vítimas das circunstâncias e a tornarmo-nos o personagem principal a da nossa história.















goncaloperry@gmail.com
O meu nome é Gonçalo Perry da Câmara, atualmente estudo no Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes (ISMAT) na licenciatura de Gestão de Recursos Humanos, tenho um grande interesse na psicologia da performance e superação pessoal. Acredito que a disciplina é a base de qualquer sucesso duradouro. Pratico desporto regularmente e vejo na atividade física um paralelo para os desafios profissionais: a consistência supera a intensidade.

Escolhi o livro porque acredito que, para ser um bom gestor de RH, é fundamental compreender os limites da mente humana e como a motivação intrínseca pode ser cultivada para alcançar resultados de excelência, tanto a nível individual como organizacional. 

Motivo-me a ser todos os dias, melhor do que fui ontem. 




Referências

Goggins, D. (2018). Can't Hurt Me: Master Your Mind and Defy the Odds. Lioncrest Publishing.

Deci, E. L., & Ryan, R. M. (2000). The "what" and "why" of goal pursuits: Human needs and the self-determination of behavior. Psychological Inquiry.

Seligman, M. E. P. (2011). Flourish: A Visionary New Understanding of Happiness and Well-being. Free Press.

Dweck, C. S. (2006). Mindset: The New Psychology of Success. Random House.

Goleman, D. (1995). Emotional Intelligence. Bantam Books.

Csikszentmihalyi, M. (1990). Flow: The Psychology of Optimal Experience. Harper & Row.



Caro/a Leitor, para Citar esta Book Review, use esta referência final:

Perry, G. (2025). A Mente Blindada – Da Vitimização à Superação. Book Review orientada por PhD Patrícia Araújo no âmbito da unidade curricular de 'Métodos de Intervenção e Desenvolvimento Organizacional'. ISMAT - Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes.

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