domingo, 24 de maio de 2026

BOOK REVIEW – KAROLINY GODOI ALVES DE OLIVEIRA - O PRÍNCIPEZINHO PÕE A GRAVATA

Sinopse:

O livro “O Príncipezinho Põe A Gravata” conta, em forma de fábula, a história real de uma empresa, que para efeitos do livro chama-se a consultora SAT. Nesta organização os trabalhadores estão desmotivados, há conflitos frequentes e o ambiente é negativo. Tudo isto muda quando chega Pablo Príncipe, personagem optimista e entusiasta, inspirado na obra “O Principezinho” de Saint-Exupéry. Pablo não lidera de modo tradicional. Na verdade ele promove o autoconhecimento, a inteligência emocional e desenvolvimento pessoal como impulsionador das pessoas. Através das suas ideias, ele começa a transformar a forma como as pessoas pensam, trabalham e se relacionam. Vilaseca transforma um livro sobre liderança num relato inspirador que pretende divulgar valores de crescimento pessoal através de uma história exemplar. O sofrimento profissional nem sempre vem do trabalho, muitas vezes vem da forma como nos relacionamos com ele.


Sobre o autor:

Borja Vilaseca é escritor, divulgador, conferencista, professor, empreendedor e criador de projetos pedagógicos destinados a promover uma mudança de paradigma social. Fundou a Kuestiona, uma comunidade educativa para pensadores, exploradores espirituais e inconformistas, que promove programas online para ajudar as pessoas a tornarem-se a mudança que querem ver no mundo; fundou também La Akademia, um movimento cidadão que promove gratuitamente educação emocional e de empreendedorismo para jovens; assim como o projeto Terra, uma proposta de escola consciente e de transformação do sistema educativo. Todos estes projetos têm presença internacional, tal como os diversos cursos online que organiza. É também autor de vários bestsellers de desenvolvimento pessoal que contam já com mais de 500 000 exemplares vendidos e são publicados em mais de 20 países.

Resumo da obra:

Esta fantástica história começa com Pablo Príncipe na sua preparação para a entrevista de emprego na consultora SAT. Nas primeiras páginas já é possível identificar pistas sobre toda a temática do livro, como a jornada para o autoconhecimento, o desenvolvimento pessoal e a inteligência emocional que Pablo Príncipe tem nas adversidades daquela manhã.

Na consultora SAT os funcionários vivem em ambientes de trabalho tóxicos, com chefias frustradas e que descontam esta raiva nos trabalhadores. Sair a horas nunca foi sequer uma hipótese, mesmo em datas celebrativas. Tudo que fazem está sempre mal feito aos olhos da hierarquia.

Ao chegar no edifício da consultora, Pablo encontra o porteiro. Este não estava à espera de ser notado, e inclusive inicialmente é um pouco ríspido com o personagem principal. Inúmeros outros homens de fato e gravata já haviam passado por ali a caminho da entrevista de emprego, e o porteiro pensou que Pablo Príncipe seria mais um destes executivos que só pensavam em si próprios. Pablo mostra se diferente dos outros, pede gentilmente ajuda ao porteiro para colocar a sua gravata, ele quer causar boa impressão e o porteiro deseja-lhe sorte. Talvez é exatamente alguém como Pablo que aquela consultora precisa.

Apesar de não ter uma vasta experiência profissional para o cargo que estavam a contratar, Pablo acaba por convencer Jordi Amorós de que, tem muita vontade e jeito para lidar com as pessoas e levá-las a alcançar as suas melhores versões a partir do autoconhecimento. O personagem principal torna-se o novo gestor de pessoas e valores e não se deixa intimidar pelo chefe tóxico que grita com todos e não acredita nos benefícios do bem-estar organizacional e no desenvolvimento pessoal. Para este chefe, os funcionários só são produtivos quando temem à chefia.

A consultora SAT representa o que muitas organizações modernas são. Burocrática, desmotivadora, focada apenas em resultados financeiros e com relações tóxicas e falta de propósito. Pablo começa a promover a mudança na organização, através do seu curso de autoconhecimento, desenvolvimento pessoal e a inteligência emocional. Ao contrário dos líderes tradicionais, ele não começa por impor mudanças. Pablo observa, faz perguntas, tem empatia e tenta compreender as pessoas. Ele transmite a ideia, que para alguns pode ser desconfortável. A liderança começa por escutar antes de controlar.

Pablo encoraja às pessoas para tomarem consciência de que o que o outro faz connosco só nos afeta se deixarmos aquilo ter influência em nós próprios. A mudança não acontece de um dia para o outro, existe um processo de transformação com as seguintes fases:

·         Autoconhecimento: muitos problemas profissionais vêm de desconexão pessoal. Ele incentiva os colaboradores a se perguntarem quem sou eu? O que realmente quero? Estou alinhado com este trabalho?

·         Responsabilidade individual:  a mudança começa em cada indivíduo. Em vez de culpar a empresa ou os chefes, cada pessoa é convidada a assumir o seu papel e a responsabilidade pelas suas próprias ações, deixam de ser vítimas e tornam-se agentes de mudança. O que depende de mim? O que eu posso mudar?

·         Inteligência emocional:  as pessoas começam a se comunicarem melhor e a resolver os conflitos de forma harmoniosa. O foco passa a incluir as emoções individuais, as relações interpessoais e a empatia.

·         Propósito e sentido:  trabalhar deixa de ser só “ganhar dinheiro” e passa a ter significado. Qual o propósito do nosso trabalho? Isto faz sentido para mim?

O livro nos mostra também fragmentos da vida de Pablo, para entendermos como ele chegou à sua versão atual. O personagem principal é o caçula da família, sua mãe faleceu e nos é apresentado o seu pai e os dois irmãos. Cada um muito bem-sucedido e felizes no trabalho, que deixam as esposas e o pai orgulhoso. Em contrapartida, Pablo ainda não era bem-sucedido, despediu-se do seu trabalho que era estável e decidiu ir procurar significado na vida, mesmo que isto causasse desgosto no pai e repulsa dos irmãos. Ele nunca foi compreendido.

Num dos capítulos mais filosóficos, Pablo explica que muitos conflitos profissionais nascem do ego, da necessidade de reconhecimento, do medo de errar, de uma competição excessiva e o desejo por controlo.  Ele faz um paralelo com o chefe que a consultora SAT tem, e encoraja os funcionários e verem o seu superior com outros olhos, a respirar funco quando ele fosse rude e não devolver na mesma moeda. Pelo contrário, tratar o ódio com empatia. Os colaboradores começam a perceber que muitos dos seus comportamentos já são automáticos e que nunca pararam para pensar que o chefe também poderia estar a passar por situações que o deixavam furioso.

A história nos leva a mais um exemplo onde Pablo é observador e empático. Ele aborda Alícia Oromi e questiona há quanto tempo ela está grávida. Ela não havia contado a ninguém e escondia a gravidez o máximo que podia por puro medo de ser despedida. Havia um histórico na empresa de outras mulheres que teriam sido dispensadas quando se tornaram mães. Pablo fez o possível para assegurá-la que o seu trabalho não estava em causa e que ela poderia tirar o tempo que fosse necessário para garantir que a sua gravidez estava saudável e aproveitar da sua maternidade.

Gradualmente a empresa se transforma, o ambiente melhora, o compromisso e a colaboração aumentou, e os resultados estão ainda melhores. Mas o livro deixa claro, a verdadeira vitória não é financeira, é o facto de as pessoas terem mudado. Um novo modelo de liderança é implementado. O líder deixa de ser controlador e autoritário e passa a ser um facilitador, alguém que inspira e que desenvolve pessoas.

Veronica Serra, rececionista da consultora SAT tem um cliente em chamada aos berros porque precisa urgentemente falar com Jordi Amorós. Ela não se deixa afetar e explica pacientemente ao cliente que não será possível porque o diretor não estava disponível. Jordi Amorós havia tirado o dia para estar presente para sua família, ser um marido e pai mais atencioso. Pablo Príncipe também conseguiu mudar as vidas pessoais dos funcionários, não só em contexto de trabalho. Após o seu ataque cardíaco, o diretor começou a ver a vida de forma diferente e percebeu que o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal é crucial para não perder o que há de melhor em ambos os contextos. “O essencial é invisível aos olhos.”

A narrativa posteriormente nos conta que este chefe tinha um desejo profundo de ser pai, e recentemente havia descoberto ser infértil. A única coisa que lhe dava paz era quando ele se lembrava da esposa, quando tocava a aliança no seu dedo. Este processo estava a corroê-lo por dentro e estava a afetar todos à sua volta. Ao saber disto e partilhar com o diretor da consultora Jordi Amorós, Pablo convence-o a pagar uma viagem até Madagáscar para que o chefe descubra por si próprio a ser mais resiliente e empático, através da jornada pelo autoconhecimento.

Em Madagáscar, ele enfrentou muitas dificuldades, mas também foi uma jornada muito enriquecedora. O chefe conseguiu se conhecer melhor, se perdoar e entender o mal que fazia aos seus subordinados, o quanto conseguia ser tóxico. Ele mandou uma carta ao diretor e pediu que transmitisse a mensagem aos demais. Ele contou como foi o tempo em que ficou no país, sobre o modo de vida dos malgaxes, e como aquilo era uma lição de vida. Reconheceu as suas falhas e pediu perdão a todos. Quando voltou pessoalmente à consultora, fez que questão de cumprimentar cada um, olhar nos olhos e pedir perdão novamente. Por fim ainda partilhou que iria ser pai, que ele e a esposa tinham decidido adotar uma criança de Madagáscar.

Borja Vilaseca fecha com uma ideia muito próxima do espírito da obra “O Principezinho”. O sucesso não depende apenas de carreira, estatuto ou dinheiro. Depende da consciência, da autenticidade das relações humanas e sobre tudo do autoconhecimento!

·         O Principezinho vs Pablo Príncipe:  No livro original, o Principezinho é alguém que observa sem preconceitos, faz perguntas simples mas profundas, não aceita regras só porque sim e vê o que os adultos já deixaram de ver. Pablo Príncipe desempenha exatamente esse papel. Ele entra numa empresa cheia de hábitos automáticos e começa a fazer perguntas aparentemente óbvias. Porque trabalham? O que procuram? São felizes? Tal como o Principezinho, ele desmonta ideias consideradas normais.

·         A raposa vs as relações humanas:  Uma das frases mais famosas do Principezinho é “Tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas.” Na obra original, a raposa ensina vínculo, presença e o significado das relações. No livro de Borja isto aparece como a empatia, a confiança, a cultura organizacional e liderança. A empresa deixa de ser uma máquina e passa a ser um espaço de relações. As pessoas não produzem melhor porque são pressionadas, como acreditava o chefe da sala das máquinas. As pessoas produzem melhor porque se sentem ligadas, conectadas, parte do todo.

·         A rosa vs o propósito:  No livro original a rosa representa aquilo que damos valor através do cuidado. No livro “O Príncipezinho Põe A Gravata” o propósito pessoal transmite uma mensagem equivalente. Cada um dos trabalhadores é convidado a descobrir o que é importante para si próprio e o que verdadeiramente merece a transmissão de energia. O sentido nasce do compromisso como algo significativo.

·         “O essencial é invisível aos olhos”:  Esta é a ligação mais forte entre as obras no meu ponto de vista. O autor traduz isto para o mundo do trabalho. As empresas medem números de vendas, horas de trabalho e produtividade. Mas no fim ignoram o essencial. A motivação, a satisfação e as emoções das pessoas, que devem ir de acordo com os valores da empresa. Aquilo que realmente sustenta uma organização não aparece nos relatórios, é “invisível aos olhos”.

·         A viagem entre planetas vs o autoconhecimento:  O Principezinho viaja pelo universo. Na obra de Borja Vilaseca, a viagem deixa de ser física e torna-se emocional e psicológica. Cada personagem atravessa etapas inconsciente, fazem questionamentos, buscam o autoconhecimento, a transformação interior, o desenvolvimento pessoal e a inteligência emocional. Ali, a verdadeira viagem acontece dentro de cada cabeça.

O livro original “O Principezinho” de Saint-Exupéry critica adultos que esqueceram como é viver, “O Príncipezinho Põe A Gravata” de Borja Vilaseca critica profissionais que esqueceram porque trabalham. No fundo, O Principezinho não desaparece quando crescemos, ele apenas fica escondido debaixo de uma gravata.

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