segunda-feira, 30 de março de 2026

A Sociedade do Cansaço – Book Review por Cláudia Valdire

 



Biografia do Autor

Byung-Chul Han nasceu em 1959, na Coreia do Sul, sendo atualmente reconhecido como um dos pensadores mais relevantes na análise crítica da sociedade contemporânea, sobretudo no que diz respeito às transformações sociais, culturais e psicológicas associadas ao mundo moderno. Curiosamente, o seu percurso académico não começou na área da filosofia. Numa fase inicial dedicou-se ao estudo da metalurgia no seu país de origem, seguindo uma área mais técnica e científica, aparentemente distante das reflexões filosóficas que mais tarde viriam a caracterizar a sua obra.

A mudança decisiva ocorreu quando decidiu mudar-se para a Alemanha, decisão que acabou por transformar profundamente o seu percurso intelectual. Foi nesse contexto que entrou em contacto com a tradição filosófica europeia e passou a interessar-se por questões relacionadas com a cultura, a linguagem e a condição humana. A partir desse momento optou por abandonar a área da engenharia e dedicar-se ao estudo da filosofia, da literatura alemã e da teologia, frequentando instituições académicas de referência como a University of Freiburg e a University of Munich.

Atualmente leciona filosofia e estudos culturais na Berlin University of the Arts, onde desenvolve investigação sobretudo nas áreas da filosofia social e da teoria cultural. Ao longo dos últimos anos tem-se destacado pela forma crítica com que observa e interpreta os fenómenos da sociedade contemporânea, refletindo sobre temas como o impacto das tecnologias digitais, a aceleração do ritmo de vida, a cultura da produtividade e as novas formas de poder e controlo que emergem no contexto do capitalismo contemporâneo.

Grande parte da obra de Byung-Chul Han procura compreender de que forma a sociedade atual influência o modo como os indivíduos pensam, trabalham e se relacionam entre si. O autor procura demonstrar que muitas das pressões vividas no quotidiano moderno não resultam apenas de imposições externas, mas também de expectativas que os próprios indivíduos acabam por interiorizar.

Entre as suas obras mais conhecidas encontra-se A Sociedade do Cansaço, um ensaio relativamente breve que teve grande impacto no debate académico e social. Para além desta obra destacam-se também Psicopolítica e A Sociedade da Transparência, textos nos quais o autor continua a desenvolver uma reflexão crítica sobre as transformações da sociedade contemporânea.

A escrita apresentada nas suas obras caracteriza-se por ser concisa e reflexiva, frequentemente estruturada em pequenos ensaios ou fragmentos filosóficos. Apesar da extensão relativamente reduzida dos seus livros, o conteúdo apresenta uma elevada densidade conceptual, convidando o leitor a uma leitura atenta e crítica.

 

Sumário do Livro

A Sociedade do Cansaço, publicado originalmente em 2010, apresenta uma reflexão filosófica sobre as transformações estruturais que caracterizam a sociedade contemporânea. Inserida no domínio da filosofia social, a obra procura compreender de que forma as mudanças nos modelos de produção, nas formas de poder e nas expectativas sociais influenciam o modo como os indivíduos vivem e experienciam o seu quotidiano.

Segundo o autor, a sociedade atual deixou de se organizar segundo o modelo disciplinar que caracterizava grande parte do século XX. Nesse modelo, o controlo social exercia-se sobretudo através de mecanismos externos, como normas, proibições e instituições que regulavam o comportamento dos indivíduos. As escolas, as fábricas, os hospitais ou as prisões constituíam exemplos claros dessas estruturas que moldavam o comportamento humano e definiam aquilo que era considerado aceitável dentro da ordem social.

Contudo, esse modelo foi progressivamente substituído por um novo paradigma que o autor designa como sociedade do desempenho. Neste novo contexto social, o controlo já não se exerce principalmente através da repressão ou da proibição, mas através de expectativas que os próprios indivíduos acabam por interiorizar. Em vez de serem obrigados a obedecer, os indivíduos passam a sentir-se responsáveis por produzir mais, melhorar continuamente e alcançar níveis cada vez mais elevados de desempenho.

Surge assim o que o autor designa como sujeito de rendimento, um indivíduo que simultaneamente se exige e se explora. A lógica do desempenho transforma-se numa pressão constante, levando o indivíduo a assumir um papel ativo na sua própria exploração.

De acordo com a análise apresentada na obra, esta transformação pode ser entendida como uma passagem de um paradigma imunológico para um paradigma neuronal. O paradigma imunológico, predominante no século XX, baseava-se numa lógica de defesa contra ameaças externas, estabelecendo uma distinção clara entre interior e exterior. Já o paradigma neuronal caracteriza-se pelo excesso de estímulos, pela hiperatividade e pela pressão constante para produzir e alcançar resultados.

Neste contexto também as formas de sofrimento humano se transformam. Enquanto no passado predominavam doenças de natureza infeciosa, a sociedade contemporânea passa a ser marcada sobretudo por perturbações psicológicas, como a depressão, o burnout ou o transtorno de défice de atenção.

Outro conceito central desenvolvido ao longo da obra é o de “violência da positividade”. Ao contrário das formas tradicionais de violência, que se manifestavam através da repressão ou da proibição, esta nova forma de violência resulta do excesso, excesso de produção, de comunicação, de informação e de expectativas de desempenho.

Deste modo o sujeito contemporâneo transforma-se num sujeito de rendimento, alguém que simultaneamente se exige e se explora, uma vez que interioriza as expectativas sociais e passa a impor a si próprio padrões cada vez mais elevados.

Ao longo dos capítulos do livro são ainda abordados temas como a fragmentação da atenção, a perda da capacidade de contemplação e a predominância de uma lógica de atividade constante. Estes fatores contribuem para aquilo que o autor identifica como um estado generalizado de cansaço psicológico, fenómeno que acaba por se tornar uma das características mais evidentes da sociedade contemporânea.

 

Análise Crítica

Uma das principais contribuições de A Sociedade do Cansaço reside na forma como a obra interpreta as transformações da sociedade contemporânea, deslocando o foco da violência social do exterior para o interior do indivíduo.

Inspirando-se em autores como Michel Foucault, a análise apresentada sugere que os mecanismos tradicionais de controlo baseados na vigilância e na norma foram progressivamente substituídos por formas de poder mais subtis e interiorizadas. O indivíduo acredita agir de forma livre, mas continua sujeito a um conjunto de expectativas sociais que o pressionam constantemente.

Outro aspeto particularmente interessante da obra prende-se com a reflexão sobre a atenção e a experiência do tempo na sociedade contemporânea. O autor critica a valorização do multitasking e da hiperatividade, argumentando que estas práticas contribuem para uma fragmentação da atenção e dificultam a concentração profunda.

Neste contexto surge o conceito de “tédio profundo”, entendido como uma condição importante para o desenvolvimento do pensamento reflexivo e da criatividade. Num mundo marcado pela aceleração e pela constante estimulação digital, a possibilidade de parar, refletir ou simplesmente não fazer nada torna-se cada vez mais rara.

A obra aborda também a predominância da chamada vita activa, conceito associado ao pensamento de Hannah Arendt. Segundo esta perspetiva, a sociedade contemporânea valoriza excessivamente a atividade e a produtividade, relegando para segundo plano a importância da contemplação, da reflexão e do descanso.

Apesar da relevância das reflexões apresentadas, é possível identificar algumas limitações. Em determinados momentos a obra tende a apresentar a sociedade contemporânea de forma relativamente homogénea, não considerando plenamente as diferenças existentes entre contextos sociais, culturais e económicos.

Ainda assim, A Sociedade do Cansaço constitui um contributo importante para compreender as dinâmicas sociais contemporâneas, sobretudo ao evidenciar formas de pressão invisíveis que moldam o comportamento humano.

 

Opinião Pessoal

Na minha perspetiva, A Sociedade do Cansaço é uma obra particularmente relevante para compreender muitos dos desafios que caracterizam a vida contemporânea. Apesar de se tratar de um livro relativamente curto, a reflexão apresentada ao longo da obra é profunda e levanta questões importantes sobre o modo como organizamos o nosso tempo, as nossas prioridades e as nossas expectativas.

Durante a leitura tornou-se evidente que muitos dos fenómenos descritos fazem parte da realidade atual, como a pressão constante para produzir, a necessidade de demonstrar desempenho e a dificuldade em desligar do trabalho ou das responsabilidades.

Um dos aspetos que mais me marcou foi a ideia de que a liberdade contemporânea pode transformar-se numa forma de pressão interna, uma vez que o indivíduo acredita agir de forma autónoma, mas simultaneamente sente-se obrigado a corresponder a expectativas cada vez mais elevadas.

 

Experiência como Reviewer

A experiência de leitura e análise desta obra revelou-se particularmente enriquecedora. Apesar de ser um livro relativamente pequeno em termos de extensão, apresenta uma grande densidade conceptual.

Em poucas páginas são levantadas questões profundas sobre o modo como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos na sociedade contemporânea. Nesse sentido, trata-se de um exemplo claro de como uma obra breve pode conter uma reflexão extremamente rica.

 

Conclusão

A reflexão apresentada na obra revela-se particularmente pertinente no âmbito da promoção da saúde e do bem-estar organizacional. Ao evidenciar as consequências psicológicas associadas à cultura da produtividade e à pressão constante para o desempenho, o livro permite compreender a importância de promover ambientes de trabalho mais equilibrados.

Num contexto profissional cada vez mais exigente, torna-se fundamental reconhecer que a promoção da saúde e do bem-estar no trabalho constitui um elemento essencial para o equilíbrio dos indivíduos e para a sustentabilidade das organizações.

 

Bibliografia

Arendt, H. (1958). *The Human Condition*. Chicago: University of Chicago Press.

Foucault, M. (1975). *Surveiller et punir*. Paris: Gallimard.

Han, B.-C. (2010). *A Sociedade do Cansaço*. Lisboa: Relógio D’Água.

 

Referência para Citação

Caro leitor/a, para citar esta Book Review utilize a seguinte referência:

Valdire, Cláudia. (2025). BOOK REVIEW – A Sociedade do Cansaço. Book Review elaborada no âmbito da unidade curricular de Promoção da Saúde e Bem-Estar Organizacional, integrada no Mestrado em Gestão de Recursos Humanos e Intervenção Organizacional, ISMAT – Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Book Review "O Movimento Slow- Carl Honoré"- por Bárbara Barbalho


"Organizações Positivas: Manual de Trabalho e Formação"- por Beatriz Seromenho

 

BOOK REVIEW

Organizações Positivas

Manual de Trabalho e Formação para desenvolver as forças dos indivíduos e das organizações

 

 


 

  

 Discente: Beatriz Alves Seromenho

Docente: Professora Doutora Patrícia Araújo

Unidade Curricular: Bem-estar Organizacional

 

 

Mestrado em Gestão de Recursos Humanos e Intervenção Organizacional

Portimão 12 de abril de 2026

 

O livro que decidi ler foi escrito por Miguel Pina e Cunha, Arménio Rego, Miguel Pereira Lopes e Mário Ceitil, tendo a sua primeira impressão ocorrido em 2008, pela editora Edições Sílabo. A obra intitula-se como” Organizações Positivas: Um Manual de Trabalho e Formação para desenvolver as forças dos indivíduos e das organizações”. Insere-se no campo da psicologia positiva aplicada às organizações, área de estudo que me desperta interesse e que motivou na escolha do livro.  Esta área procura compreender e analisar de que forma as emoções positivas, as relações interpessoais saudáveis e as práticas de liderança construtivas podem contribuir para o bem-estar e para o desempenho organizacional.

Logo no início, ainda antes de iniciar o primeiro capítulo, os autores começam por identificar os possíveis destinatários da obra, sugerindo a sua leitura a professores, formadores, gestores, estudantes, investigadores e a todos aqueles que poderão se interessar pela temática das organizações positivas. Esta diversidade de destinatários demonstra que a obra foi pensada para alcançar um público bastante abrangente, não se limitando apenas ao meio organizacional. Pelo contrário, pretende também chegar a profissionais que, no seu quotidiano de trabalho, lidam com desafios relacionados com a gestão de pessoas, a motivação das equipas e a criação de ambientes saudáveis. O livro apresenta uma linguagem acessível e utiliza muitos exercícios práticos para que o leitor possa aplicar ao seu contexto.

A obra está organizada em quatro partes principais. Na parte inicial, é apresentada uma abordagem mais teórica, onde é feita uma contextualização de conceitos fundamentais da gestão, com especial enfoque na liderança positiva e nos princípios que lhe estão associados. Nesta primeira parte, os autores procuram introduzir o leitor no conceito de organizações positivas, explicando que estas se caracterizam por valorizar os pontos fortes dos indivíduos, promover relações de confiança e incentivar práticas que reforcem a cooperação e o sentido de pertença. Em vez de se focarem apenas nos problemas ou nas falhas, estas abordagens procuram identificar aquilo que funciona bem dentro das organizações e valorizar as características de todos os envolvidos. Assim, a liderança positiva apresenta-se como um estilo de liderança que procura desenvolver o potencial individual dos colaboradores, promover o reconhecimento e estimular um ambiente de trabalho baseado no respeito, na valorização e no bem-estar das pessoas.

Na segunda parte, são propostos diversos exercícios, dirigidos tanto ao leitor individual como à sua equipa de trabalho. Estes exercícios incentivam à reflexão através de desafios práticos. A título de curiosidade destaco o exemplo que é feito em um dos exercícios através da analogia do camelo (pág. 135), um animal capaz de percorrer grandes distâncias no deserto, demonstrando elevada resistência em contextos adversos. A partir desta analogia, o livro pretende que o leitor reflita sobre a existência de colaboradores com características semelhantes nas organizações. Através deste tipo de comparação, os autores procuram um maior conhecimento dentro da organização aproximando-os de situações concretas do quotidiano profissional. A analogia do camelo permite refletir sobre a resiliência, competência esta cada vez mais valorizada nas organizações contemporâneas. Numa atualidade marcada por mudanças constantes, pressões profissionais e desafios organizacionais, a capacidade de adaptação e de resistência face às adversidades torna-se uma qualidade fundamental para os trabalhadores e para as equipas.

A importância do sorriso é também abordada neste capítulo, levando-me a refletir sobre uma vertente que até então desconhecia ou não atribuía tanta importância. Para iniciar este tema o livro faz referência a um estudo realizado entre 2003 e 2006, com uma amostra de 160 pessoas, entre os 25 e os 60 anos, diagnosticadas com depressão. Os resultados indicam que expressões como o sorriso largo e o sorriso superior podem ter um impacto positivo no tratamento, contribuindo, a longo prazo, para a valorização de pensamentos positivos em detrimento dos negativos. Este exemplo demonstra que pequenos comportamentos, aparentemente simples, podem ter efeitos significativos no estado emocional das pessoas.

Este aspeto é depois aplicado, ao contexto organizacional, com recurso a exemplos reais de empresas que consideram este tipo de característica no processo de recrutamento e seleção. Ainda que de forma indireta, os benefícios desta prática acabam por se refletir no ambiente organizacional, nomeadamente ao nível do bem-estar, das relações interpessoais e do clima positivo nas equipas. Ao apresentarem exemplos concretos de organizações que valorizam estas características, os autores demonstram que a gestão das emoções e das relações humanas tem um impacto real no funcionamento das empresas. Organizações que incentivam ambientes de trabalho positivos tendem a apresentar níveis mais elevados de satisfação profissional, maior cooperação entre os membros das equipas e uma redução de conflitos interpessoais. Consequentemente, estes fatores acabam também por influenciar positivamente a produtividade e a eficácia organizacional.

No exercício intitulado “Indução da Positividade”, são também apresentados os benefícios e as melhorias que pequenos gestos podem trazer para o contexto organizacional. Expressões positivas, como o elogio, a cordialidade e a demonstração de empatia, contribuem para fortalecer as relações interpessoais e promover um ambiente de trabalho mais agradável e colaborativo. Particularmente, pretendo aplicar este exercício no meu local de trabalho de forma mais consciente, procurando adotar uma atitude mais atenta e intencional nas minhas interações diárias.

O exercício em si, propõe que seja registada ao longo do tempo a ação positiva praticada e o impacto que teve no colega. Este exercício parece-me especialmente interessante porque demonstra que mudanças aparentemente simples podem gerar efeitos positivos no ambiente organizacional. Além disso, o facto de registar as ações realizadas e os seus impactos permite ao leitor desenvolver uma maior consciência sobre a influência do seu comportamento nas relações profissionais.

Este capítulo reforça também a importância das pessoas nas organizações, destacando o papel fundamental de manter colaboradores motivados, interessados e otimistas. Deste forma, o leitor é estimulado a identificar o tipo de organização em que se insere, bem como o tipo de líder ou colaborador que é. A título de curiosidade, é apresentada uma comparação entre Portugal e outros países europeus. Esta comparação internacional permite compreender que as culturas organizacionais podem variar entre países, influenciando a forma como as pessoas trabalham, comunicam e se relacionam dentro das organizações. Ao refletir sobre estas diferenças, o leitor é incentivado a analisar criticamente o contexto em que se encontra inserido e a identificar possíveis áreas de melhoria no funcionamento da sua própria organização.

Na terceira parte, a liderança positiva e apreciativa é explorada, essencialmente, através de exercícios práticos. Inicialmente, propõe-se uma reflexão sobre a perceção que os colaboradores (ou alunos) têm do líder, recorrendo a vários exemplos de questionários de avaliação em diferentes dimensões da liderança positiva. Destaco, pela sua relevância, os questionários que avaliam a postura e a ligação que os colaboradores estabelecem com os líderes. Posteriormente, são sugeridos exercícios de autoavaliação, promovendo o autoconhecimento e a autorreflexão do próprio líder. Esta parte do livro demonstra que a liderança não deve ser entendida apenas como uma posição hierárquica, mas sobretudo como um conjunto de comportamentos e atitudes que influenciam diretamente os colaboradores. Ao promover exercícios de reflexão e autoavaliação, os autores procuram que os líderes desenvolvam uma maior consciência sobre o impacto das suas decisões e das suas atitudes no clima organizacional. Dessa forma, torna-se possível identificar comportamentos que podem ser melhorados e promover estilos de liderança mais participativos, construtivos e motivadores.

A quarta e última parte é dedicada a questionários de autoavaliação e à compreensão das características organizacionais. O leitor é convidado a responder a vários instrumentos que permitem um maior conhecimento de si próprio e da organização em que se insere. Esta secção centra-se especialmente na avaliação do bem-estar no trabalho e na qualidade das relações interpessoais. A utilização destes instrumentos de autoavaliação permitem ao leitor desenvolver uma análise mais profunda sobre o seu próprio comportamento e sobre o funcionamento da organização em que trabalha.

Na minha opinião, trata-se de uma obra bastante pertinente e prática, especialmente útil para quem exerce funções de liderança, independentemente do contexto. A leitura é bastante acessível e o livro destaca-se pela riqueza de exercícios, dinâmicas e momentos de reflexão. De certa forma, “obriga” o leitor a parar, pensar e analisar a sua realidade, promovendo o desenvolvimento pessoal e profissional. Ao nível coletivo, também se revela um investimento valioso para equipas de trabalho. Considero igualmente que a obra apresenta um contributo relevante para a promoção de ambientes organizacionais mais saudáveis e equilibrados. O livro oferece ferramentas úteis que podem ser aplicadas tanto em contextos empresariais como em instituições públicas ou educativas.

Em síntese, o livro “Organizações Positivas” apresenta-se como um manual que combina fundamentos teóricos com propostas práticas de intervenção, permitindo ao leitor refletir sobre o seu papel dentro da organização e sobre as formas de contribuir para ambientes profissionais mais positivos. Através da valorização das pessoas, da promoção de relações saudáveis e do desenvolvimento de lideranças construtivas, os autores demonstram que é possível construir organizações mais eficazes, sustentáveis e orientadas para o bem-estar coletivo.

Deste modo, a obra revela-se, igualmente relevante para estudantes e profissionais da área da gestão de recursos humanos, constituindo um contributo útil para a reflexão sobre práticas organizacionais orientadas para o desenvolvimento das pessoas e para a promoção do bem-estar no trabalho.

 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes: Book review por Leonor Martins

 Mudam-se os Hábitos, Mudam-se os Resultados: 

Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes

   




     https://www.ismat.pt/pt/







Stephen Richards Covey (1932-2012) foi um escritor, palestrante e consultor norte-americano, conhecido mundialmente na área do desenvolvimento pessoal e pelo seu livro Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes. Nascido em Salt Lake City, formou-se em Administração na Universidade do Utah e obteve depois um MBA na Harvard Business School. Posteriormente, completou um doutoramento na Brigham Young University. Foi reconhecido pela revista Time como um dos 25 americanos mais influentes. 

(Stephen Covey. 2010. In Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Stephen_Covey)

O livro Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, escrito por Stephen R. Covey, fala sobre como qualquer pessoa pode desenvolver comportamentos e atitudes que aumentam a eficácia na sua vida pessoal e profissional. O objetivo do livro é mostrar através de sete hábitos, como alcançar o sucesso com equilíbrio, valores, e relações positivas.

 

Hábito número 1: Ser Proativo.

Este primeiro hábito explica que, as pessoas eficazes sabem a diferença do que podem e não podem controlar, e têm poder de escolha. O que distingue os humanos dos outros animais é a nossa capacidade de examinar o nosso próprio carácter, e controlar a nossa eficácia. Pessoas reativas acreditam que o mundo está contra elas e que não têm controlo nenhum do que lhes acontece na vida, dizem coisas como “não há nada que possa fazer”, e sentem-se vitimizadas. Pessoas proativas, sabem que possuem responsabilidade e que podem escolher como reagir às situações. De modo a ser proativo, devemos focar-nos nas coisas que sabemos que podemos controlar.

 

Hábito número 2: Começar com o fim em mente.

O segundo hábito fala sobre a importância de ter uma visão clara do futuro. Covey refere que podemos usar a nossa imaginação para desenvolver uma visão daquilo que realmente queremos. Em tudo o que fazemos, devemos começar com um destino claro, assim, teremos a certeza de que estamos a tomar os passos certos em direção ao nosso objetivo. 

 

Hábito número 3: Colocar o mais importante em primeiro. 

Este hábito explica que devemos possuir a disciplina para priorizar as nossas atividades do dia-a-dia com base no que é mais importante, e não o que é mais urgente. No segundo hábito, aprendemos a determinar os nossos objetivos, e perceber o que realmente queremos conquistar, o hábito 3 é sobre ir atrás desses objetivos, e executar bem as nossas prioridades. De maneira a manter a disciplina e o foco necessário, devemos ter a força de vontade de fazer alguma coisa mesmo quando não queremos. Precisamos de saber dizer “não” ao que nos distrai e agir de acordo com os nossos valores e não com os nossos impulsos ou desejos.

 

Hábito número 4: Pensar em Ganhar/Ganhar.

Este quarto hábito, defende que, nas relações e negociações o ideal é que todas as partes saiam beneficiadas. Alguns paradigmas das interações humanas que Covey refere no livro são: 

- “Se eu ganhar, tu perdes”, este tipo de pessoas normalmente usam poder, credenciais e personalidade para conseguirem o que querem;

 - “Eu perco, tu ganhas”, estas pessoas gostam de agradar os outros e procuram força em popularidade e aceitação; 

- “Ambas pessoas perdem”, quando duas pessoas teimosas e egocêntricas interagem, o resultado será ambas perderem. 

- “Ambas ganham”, os acordos e soluções são benéficos para ambas as partes. Se não se conseguir chegar a um acordo, que satisfaça toda a gente, então não deverá haver acordo. A melhor opção será sempre esta, pois as outras irão impactar negativamente um ou ambos os indivíduos. 

Outro fator importante em procurar a opção de Ganhar/Ganhar é, manter uma mentalidade abundante, ou seja, acreditar que existem recursos e oportunidades suficientes para todos nós. Muita gente opera com a mentalidade de escassez, acreditam que se uns ganham, eles não. Estas pessoas possuem dificuldade em partilhar recognição e sentirem-se verdadeiramente felizes pelos outros. Quanto mais focados estamos no Ganhar/Ganhar, mais poderosa será a nossa influência.

 

Hábito número 5: Compreender, e só depois ser compreendido. 

A maioria das pessoas não ouve com a intenção de compreender o outro. Ouvem com a intenção de responder. Se pretende ter melhores relações interpessoais, melhores resultados no trabalho, melhores conexões, pare de ouvir para responder e comece a ouvir para perceber o outro. Quando as pessoas sentem-se compreendidas, tendem a confiar mais e a serem mais recetivas ao diálogo, facilitando assim, a resolução de conflitos e o fortalecimento de relações

 

Hábito número 6: Sinergia.

Este hábito refere-se à capacidade de trabalhar em equipa, e saber que duas cabeças a trabalhar na mesma equipa, é melhor que duas cabeças a trabalhar individualmente. Ninguém num grupo é mais inteligente que o grupo inteiro. Juntos, todos atingem mais. Para criar sinergia positiva, é necessário largar o nosso egoísmo e começar a pensar como um membro da equipa, respeitando ideias diferentes e aproveitando os pontos fortes de cada pessoa para criar soluções. Para Covey, a sinergia surge quando os hábitos anteriores, especialmente o hábito 4, já estão bem desenvolvidos. Somente quando há respeito e compreensão mútua é que um grupo consegue combinar as suas forças e minimizar as suas fraquezas. 

 

Hábito número 7: “Afiar a Serra”. 

Por fim, o sétimo hábito simboliza a necessidade de renovação contínua em todas as áreas essenciais da vida. O nome deste hábito vem da metáfora de um lenhador que, por estar exausto e a trabalhar com a serra desgastada, demora cada vez mais tempo a cortar as árvores. Em vez de parar um pouco e afiar a serra, insiste em continuar a trabalhar, e acredita que parar seria uma perda de tempo. Este exemplo mostra que, perdemos eficácia quando não cuidamos de nós próprios. Covey explica que o ser humano precisa de se renovar em quatro dimensões fundamentais: a física, a mental, a social/emocional e a espiritual. 

A renovação física consiste em cuidar do corpo através de uma alimentação saudável, descanso e exercício regular. 

A renovação mental refere-se à aprendizagem contínua, o uso da criatividade e do desenvolvimento intelectual. Ler, estudar e explorar novos conhecimentos permite-nos a continuar a crescer e a adaptarmo-nos às mudanças constantes da vida.

A renovação social/emocional, consiste em conviver com pessoas que nos fazem bem, desenvolver empatia e fortalecer laços positivos, pois ajuda-nos a sentir apoio e equilíbrio emocional.

A renovação espiritual, corresponde à importância de viver de acordo com os nossos valores, crenças e propósito de vida. Esta dimensão dá significado às nossas escolhas e orienta a maneira como encaramos o mundo.

Assim, “Afiar a Serra” não é um luxo, mas sim uma necessidade importante para garantir que continuamos a evoluir e a ser eficazes ao longo do tempo. O crescimento pessoal nunca acaba, e o investimento em nós próprios é a base para uma vida feliz, produtiva e com propósito.

 

A leitura de Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes oferece ferramentas práticas e ao mesmo tempo uma espécie de guia filosófico para um crescimento gradual. Os hábitos são explicados com exemplos claros e estratégias aplicáveis, tornando-os acessíveis para quase todas as pessoas. Os hábitos são divididos em três etapas, sendo os três primeiros quando precisamos dos outros para agir (dependência), os três seguintes quando assumimos controlo da própria vida (independência), e o último hábito, quando aprendemos a trabalhar de forma eficaz com os outros (interdependência), que ajuda a compreender que a eficácia pessoal é a base para relações saudáveis e um trabalho em equipa produtivo. 

 

Este livro ajuda a superar a resistência à mudança ao ensinar hábitos que promovem a proatividade e boa comunicação. Ser proativo permite enfrentar a mudança com atitude, em vez de resistir passivamente. Ter um objetivo definido dá sentido ao processo e reduz o medo do desconhecido. Ouvir os outros com empatia ajuda a criar confiança e a diminuir receios. Trabalhar em equipa e valorizar as diferenças, facilita a aceitação da mudança transformando-a numa oportunidade de crescimento. 

 

A razão de ter escolhido este livro, foi porque me pareceu um livro muito interessante e relevante para o meu desenvolvimento pessoal e também profissional. Já tinha ouvido falar várias vezes da sua relevância, especialmente na área da liderança e da gestão. Quis ler por mim própria os sete tão famosos hábitos e aproveitei esta oportunidade para tal. O livro fez-me sem dúvida refletir sobre os meus próprios hábitos e motivou-me a melhorá-los. Como futura gestora de recursos humanos, este livro ofereceu-me lições valiosas que irei aplicar no futuro de modo a melhorar a minha liderança e gestão de equipas como promover a proatividade na equipa, valorizar as diferenças e promover a colaboração, gerir melhor as prioridades e ajudar a equipa a alinhar as suas tarefas e projetos com objetivos claros e significativos para que todos saibam o “porquê” do seu trabalho.

 

 

 

 

Leonor Martins,

Estudante de Gestão de Recursos Humanos.

 

Email: leonornm.martins@gmail.com



Caro/a Leitor, para Citar esta book Review, use esta referência final:

 

Último nome, Primeira Inicial. (Data). Título da Book Review. Book Review Orientada por PhD Patrícia Araújo no âmbito da unidade curricular de “Métodos de Intervenção e Desenvolvimento Organizacional”. ISMAT- Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes.

Disponível em: COLOCAR LINK Completo.

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

The Myths of Happiness - Book Review por Lara Rodrigues

 





Book Review: The Myths of Happiness – O Que Realmente Nos Torna Felizes?

 

 

Resumo


No livro The Myths of Happiness, a autora desmonta vários mitos culturais que influenciam a forma como vemos a felicidade. Entre eles estão ideias como “vou ser feliz quando…”, associadas a casar, conseguir o emprego dos sonhos, ter filhos ou ganhar mais dinheiro; ou ainda a crença de que “nunca devo sentir” emoções como arrependimento, inveja ou frustração. Outro mito comum é pensar que, se algo correr mal, a felicidade desaparece para sempre.

A autora mostra que muitas pessoas acreditam que grandes conquistas proporcionam felicidade permanente, mas, devido ao fenómeno da adaptação hedónica, o impacto positivo desses momentos diminui rapidamente. O que realmente contribui para o bem-estar é a forma como vivemos o dia a dia, como cultivamos relações, damos significado às nossas experiências e desenvolvemos hábitos saudáveis.

Quando alguém atinge um objetivo importante e percebe que não se sente tão feliz quanto esperava, surgem muitas vezes sentimentos de culpa, frustração e até de falha pessoal. Lyubomirsky explica que estas emoções não vêm da nossa vida real, mas sim das expectativas erradas que criamos. Do mesmo modo, a autora desconstrói a ideia de que eventos negativos — como um fracasso ou o fim de uma relação — representam o fim da felicidade, lembrando-nos de que somos muito mais resilientes do que imaginamos. O sofrimento, segundo ela, pode gerar crescimento, reforçar relações e dar novo propósito à nossa vida.

Um dos pontos centrais do livro é que aquilo que sentimos depende sobretudo da forma como interpretamos o que nos acontece. A autora apresenta várias ferramentas que ajudam a melhorar essa interpretação e a construir um bem-estar mais estável, como a reavaliação cognitiva, a gratidão, o foco em objetivos intrínsecos e práticas intencionais de felicidade ligadas à socialização, gentileza e propósito.

A principal mensagem é a importância de abandonar falsas promessas culturais e concentrar-se em práticas diárias, relações autênticas e significado pessoal. Por ser uma obra prática, bem fundamentada e fácil de compreender, ajuda o leitor a reformular crenças e a encontrar formas mais realistas e duradouras de cultivar o bem-estar no quotidiano.


Biografia:

A autora Sonja Lyubormirsky, professora de psicologia na Universidade da Califórnia, Riverside, e autora do best-seller de 2008 "A Ciência da Felicidade" (The How of Happiness), dedicou a sua carreira ao estudo do bem-estar em relação ao casamento, divórcio, trabalho, riqueza, doenças e outros momentos decisivos da vida adulta.

Sonja Lyubormirsky, apresenta neste livro as crenças equivocadas que muitas pessoas têm sobre o que deveria trazer felicidade — e como essas expectativas acabam por nos deixar mais infelizes.

 

 

 Qual a ligação entre os temas do livro com a UC?

 

A obra mostra como as pessoas tendem a criar expectativas irreais sobre o que lhes trará felicidade e como a adaptação emocional reduz rapidamente o impacto de acontecimentos positivos ou negativos. Estes conceitos são relevantes para o Desenvolvimento Organizacional, especialmente na gestão da mudança, onde é fundamental compreender que colaboradores inicialmente resistem, mas acabam por se adaptar, exigindo reforço contínuo das intervenções.

Lyubomirsky destaca também a importância da reavaliação cognitiva e da gestão das perceções, temas presentes em práticas de coaching, liderança e comunicação organizacional.

Ao demonstrar mitos como “serei feliz quando for promovido”, o livro aproxima-se das abordagens que procuram alinhar expectativas, reduzir frustrações e promover objetivos realistas dentro das equipas. Além disso, ao defender práticas como gratidão, relações positivas e objetivos intrínsecos, a autora reforça ideias de bem-estar, motivação e clima organizacional presentes em modelos humanistas de Desenvolvimento Organizacional.

Por fim, o livro enfatiza a resiliência e a autenticidade, aspetos fundamentais para intervenções que visam fortalecer equipas, desenvolver líderes e construir culturas organizacionais saudáveis. Assim, The Myths of Happiness oferece uma perspetiva psicológica que complementa e enriquece o entendimento sobre como as pessoas reagem a mudanças, interpretam experiências e constroem bem-estar dentro das organizações.

 

 O livro não só apresenta mitos comuns sobre felicidade, como também me levou a refletir sobre as minhas próprias expectativas e padrões de comparação. É uma leitura transformadora, porque nos convida a repensar o modo como avaliamos as nossas experiências. Outro ponto forte é a aplicabilidade prática. Não se trata apenas de teoria; Lyubomirsky apresenta estratégias concretas que podem ser integradas no quotidiano para melhorar o bem-estar de forma contínua. Estas ferramentas tornam o livro útil para quem procura desenvolvimento pessoal ou quer compreender melhor os mecanismos psicológicos por detrás da felicidade.


Eu escolhi este livro pois só o título por si pareceu-me interessante, à medida que fui lendo ia-me apercebendo que algumas coisas ditas pela autora iam de acordo com a forma como eu vejo a felicidade. Várias partes fizeram-me parar para pensar, sobretudo quando a autora fala sobre as expectativas que criamos e sobre como muitas vezes ligamos a nossa felicidade a momentos específicos que, na prática, nem sempre nos trazem aquilo que esperamos. Senti também algum alívio ao perceber que não é estranho nem errado não estar sempre a corresponder às expectativas que a sociedade cria. Como futuro gestor de recursos humanos, acho que o que mais levo desta experiência é a noção de que as pessoas precisam de espaço para serem humanas, para sentirem o que sentem, e que a felicidade no trabalho não se constrói com grandes promessas, mas com pequenas práticas diárias. No fundo, este livro fez-me olhar para o bem-estar de forma muito mais realista e humana — tanto na minha vida pessoal como na forma como quero trabalhar com pessoas no futuro.

 

Referências Bibliográficas:

- The Myths of Happiness: What Should Make You Happy, but Doesn’t; What Shouldn’t Make You Happy, but Does by Sonja Lyubomirsky: Review

- Home - Sonja Lyubomisrky

- Homepage - The Myths of Happiness

- Debunking the Myths of Happiness

 

 

Lara Rodrigues

Estudante de Gestão de Recursos Humanos do ISMAT Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes — ISMAT Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes

Email: larafcarreiro@gmail.com

 

 

 

Caro/a Leitor, para Citar esta book Review, use esta referência final:

 

Rodrigues, L. (26/11/2025). Book Review: The Myths of Happiness –What Should Make You Happy, but Doesn’t; What Shouldn’t Make You Happy. Book Review Orientada por PhD Patrícia Araújo no âmbito da unidade curricular de ‘Métodos de Intervenção e Desenvolvimento Organizacional’. ISMAT-Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes. Disponível em: https://desenvolvimento-organizacional.blogspot.com/


Entre a Dor e a Superação- Book review por Gonçalo Perry, Do livro de David Goggins



Book Review: “Can’t Hurt Me: Master Your Mind and Defy the Odds”

“O homem mais duro do planeta.” — Outside Magazine





Introdução e contexto biográfico

David Goggins é um  ex-militar das Forças Armadas dos Estados Unidos e atleta de ultra-resistência, é amplamente reconhecido como "o homem mais duro do planeta". 

A sua história é marcada por uma infância vivida num ambiente profundamente instável e abusivo na Paradise Road, East Amherst, New York.  Desde cedo o jovem David, a mãe e o irmão sofreram abusos físicos e psicológicos por parte do seu pai, que estava envolvido em atividades criminosas, incluindo administrar bares e prostituição, e era violento e alcoólatra. Para além destes abusos Goggins foi vítima de exploração infantil, onde era explorado pelo próprio pai nas suas pistas de patinagem, muitas vezes até de madrugada e mal alimentado ou sem comer.  A violência e os abusos aumentaram ao ponto da sua mãe decidir deixar o ambiente abusivo, fugindo com Goggins. 

Viveu em situação de pobreza, enfrentou racismo diariamente e ameaças de morte derivadas ao tom da sua pele e tinha graves dificuldades de aprendizagem. Apesar destes desafios, a mãe de David trabalhou incansavelmente, mantendo vários empregos para sustentar a família.  No entanto, a maior tragédia aconteceu quando o noivo da mãe, foi assassinado, deixando David à deriva na sua adolescência.

Passado alguns anos, vê-se a pesar 135 kg e a trabalhar num emprego sem futuro a pulverizar baratas. O Turning point aconteceu através de uma decisão radical, inspirada pelos Navy SEAL’s, ao ver um anúncio decidiu mudar o rumo da sua vida, o desafio auto-imposto parecia impossível, mas Goggins estabeleceu um compromisso inquebrável consigo mesmo e em apenas três meses perdeu 48kg e iniciou o treino militar mais exigente do mundo. Goggins foi o único homem a completar os três programas de elite das Forças Armadas Americanas (Navy SEALs, Army Rangers e Air Force Tactical Air Controller), tornou-se também ultramaratonista, triatleta, em que realizou feitos como correr 330 km sem parar em 39 horas, e recordista mundial de elevações ao fazer 4.000 elevações em 24 horas. 

Suportou três semanas infernais, o exaustivo treino de 130 horas, projetado para quebrar e destruir mentalmente os candidatos. Apesar de lesões e contratempos, incluindo fraturas por stress e pneumonia, David perseverou e formou-se à terceira tentativa. Sendo assim, a obra explora como transformar dor, fracasso e sofrimento em combustível para o crescimento pessoal.






Uma análise do trabalho

O livro gira em torno da jornada de autotransformação de Goggins e apresenta dez desafios práticos, fundamentados na disciplina e na responsabilidade radical. Sendo estes:

  • Estabelece comprometimento contigo mesmo
  • Assume responsabilidades
  • Enfrenta o desconforto 
  • Busca a excelência 
  • Visualiza o sucesso 
  • Remove limitações mentais 
  • Aumenta a autoconsciência 
  • Procura o crescimento contínuo 
  • Aprende com as falhas

Todo o livro reside no conceito de "calejar a mente" (callusing the mind). Tal como o nosso corpo ganha calos com o esforço físico, a mente fortalece-se ao enfrentar dificuldades repetidamente. Goggins argumenta que a sociedade moderna procura conforto imediato, mas o verdadeiro desenvolvimento ocorre através do sofrimento voluntário. Através do desconforto e sofrimento voluntário Goggins aprendeu e moldou uma mente inquebrável, uma mente blindada.

Um dos princípios mais marcantes é a "Regra dos 40%". Segundo o autor, o nosso cérebro autolimita-nos a nível físico e mental a apenas cerca de 40% da nossa capacidade total; os restantes 60% estão ocultos pela mente que tenta proteger-nos do desconforto. 

Outra ferramenta apresentada no livro é o "Pote dos Biscoitos" (Cookie Jar), uma metáfora para armazenar vitórias passadas e obstáculos superados, que servem de combustível motivacional em momentos de crise. Ou seja, quando o autor está em baixo, estimula-se e motiva-se a relembrar vitórias e feitos passados.

Outra ferramenta é o "Espelho da Responsabilidade" (Accountability Mirror), baseia-se numa prática de autocrítica radical onde o indivíduo confronta-se com as suas verdades, mesmo que duras, assim assume total responsabilidade pelos seus resultados, sem qualquer tipo de  vitimização. 



Análise crítica

A obra de David Goggins destaca-se pela sua abordagem direta e pragmática no que toca à motivação humana. Goggins traça uma distinção clara entre o prazer imediato (picos de dopamina de curta duração associados ao conforto) e a satisfação duradoura (resultante do esforço e disciplina). A sua filosofia desafia a chamada "hedonic treadmill", ou adaptação hedónica que sugere que o bem-estar sustentável não advém de reforços externos, mas sim de um sistema interno de autorregulação. Segundo Goggins o prazer imediato está associado a como referido anteriormente, picos de curta duração de dopamina, que dá prazer curto e momentâneo ao indivíduo, o que leva à necessidade de novas doses, tratando-se assim de uma “droga” devido ao curto período de atuação e êxtase paranormal. Por outro lado a satisfação duradoura advém do esforço, disciplina e superação, que gera uma sensação duradoura de competência e orgulho. Esta reforça o sentido de propósito e de identidade e mantém os níveis de bem estar psicológico estáveis, como referido anteriormente esta satisfação não advém de reforços externos, mas sim de um sistema interno de autorregulação.

Embora a sua abordagem possa parecer extrema, ela alinha-se com conceitos como o locus de controlo interno. O "Espelho da Responsabilidade" que Goggins propõe não é uma ferramenta de auto depreciação, mas sim um exercício de honestidade brutal, necessário para o nosso crescimento.

 A principal crítica que se pode fazer reside na intensidade do seu método, que pode ser interpretada como excessiva para pessoas com perfis menos resilientes. No entanto, a mensagem central é de empoderamento, Goggins afirma que ninguém nos vai salvar; o nosso progresso e sucesso, depende exclusivamente das nossas ações. Goggins demonstra que a verdadeira satisfação vem da dor transformada em conquista, e não do prazer imediato e assim oferece um contraponto importante e necessário à cultura do facilitismo.






Integração com temas da UC: Métodos de Intervenção e Desenvolvimento Organizacional

O trabalho de Goggins possui uma convergência teórica com os princípios do Desenvolvimento Organizacional especificamente no que diz respeito à motivação intrínseca e à criação de culturas de alta performance. A sua filosofia alinha-se de forma clara com a Teoria da Autodeterminação (Deci & Ryan), que postula que a motivação sólida e duradoura nasce da Autonomia e Competência. Goggins personifica esta autonomia radical e a busca incessante por competência através dos desafios a que ele se auto impõe, ou seja que o mesmo se obriga a realizar.

No contexto organizacional, a "Regra dos 40%" e a procura pelo desconforto estão intimamente ligadas com o estado de Flow (Csikszentmihalyi),  onde o desenvolvimento pessoal e profissional acontece na fronteira entre as capacidades existentes e os desafios propostos. Além disso, a mentalidade de Goggins exemplifica o Modelo PERMA de Seligman, focando-se no Achievement (Realização) e Meaning (Propósito) em detrimento de emoções positivas e superficiais. 

Para a gestão de RH e intervenção organizacional, a mensagem é: as organizações que fomentam disciplina, autonomia e os desafios equilibrados constroem um bem-estar mais sustentável do que aquelas que dependem apenas de "picos" de motivação extrínseca. O método PDCA (Plan-Do-Check-Act) é evidente na sua rotina diária de revisão e ajuste de objetivos, ao utilizar o "Espelho da Responsabilidade", usado assim como ferramenta de feedback e melhoria contínua  




Reflexão pessoal

Eu já tinha lido este livro, porém como trata-se de um dos meus livros preferidos e acredito no poder de mudança do conteúdo do mesmo, decidi trazer para a aula pois num mundo cada vez mais voltado para o conforto e a gratificação instantânea, senti a necessidade de compreender e mostrar os mecanismos da verdadeira resiliência mental.

A leitura deste livro foi verdadeiramente impactante, pois desconstruiu a crença de que o talento é inato. Ao longo do livro Goggins prova de forma convincente, que a resiliência mental, a que ele chama de "mente blindada", pode ser desenvolvida através de treino e prática. A ferramenta das "Verdades no Espelho" teve um grande impacto em mim. Apercebi-me de que, frequentemente,criamos narrativas de proteção para justificar os nossos insucessos e limitações.

A aplicação destes conceitos na minha futura prática profissional passa essencialmente, por reconhecer que a liderança começa com a autoliderança, ou seja o líder antes de tudo, deve saber liderar-se a si mesmo. 

A autoconsciência e a capacidade de gerir o desconforto são, a meu ver, competências cruciais para qualquer gestor que deseje inspirar as suas  equipas. Reconheço também que o verdadeiro sucesso na gestão de pessoas não reside em eliminar todos os obstáculos que a equipa enfrenta, mas em capacitá-la para superar esses obstáculos, através de um mindset de crescimento contínuo onde a falha é vista como uma oportunidade de desenvolvimento e aprendizagem, e não como um fracasso definitivo









Conclusão

"Can’t Hurt Me" é muito mais do que um relato de feitos físicos extraordinários; é um tratado sobre o potencial inexplorado da mente humana. David Goggins ensina-nos que a dor é inevitável, mas o sofrimento é uma escolha opcional que pode ser canalizada para a transformação.

A mensagem deste livro é intemporal: "Quando pensares que já deste tudo, ainda tens 60% por descobrir". 

No contexto organizacional e da vida, a obra relembra-nos que a verdadeira liderança e o bem-estar não se encontram na zona de conforto e que a disciplina, a responsabilidade e a recusa em aceitar a mediocridade são as chaves para desbloquear o nosso verdadeiro potencial. Sendo assim, Goggins desafia-nos a deixar de ser vítimas das circunstâncias e a tornarmo-nos o personagem principal a da nossa história.















goncaloperry@gmail.com
O meu nome é Gonçalo Perry da Câmara, atualmente estudo no Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes (ISMAT) na licenciatura de Gestão de Recursos Humanos, tenho um grande interesse na psicologia da performance e superação pessoal. Acredito que a disciplina é a base de qualquer sucesso duradouro. Pratico desporto regularmente e vejo na atividade física um paralelo para os desafios profissionais: a consistência supera a intensidade.

Escolhi o livro porque acredito que, para ser um bom gestor de RH, é fundamental compreender os limites da mente humana e como a motivação intrínseca pode ser cultivada para alcançar resultados de excelência, tanto a nível individual como organizacional. 

Motivo-me a ser todos os dias, melhor do que fui ontem. 




Referências

Goggins, D. (2018). Can't Hurt Me: Master Your Mind and Defy the Odds. Lioncrest Publishing.

Deci, E. L., & Ryan, R. M. (2000). The "what" and "why" of goal pursuits: Human needs and the self-determination of behavior. Psychological Inquiry.

Seligman, M. E. P. (2011). Flourish: A Visionary New Understanding of Happiness and Well-being. Free Press.

Dweck, C. S. (2006). Mindset: The New Psychology of Success. Random House.

Goleman, D. (1995). Emotional Intelligence. Bantam Books.

Csikszentmihalyi, M. (1990). Flow: The Psychology of Optimal Experience. Harper & Row.



Caro/a Leitor, para Citar esta Book Review, use esta referência final:

Perry, G. (2025). A Mente Blindada – Da Vitimização à Superação. Book Review orientada por PhD Patrícia Araújo no âmbito da unidade curricular de 'Métodos de Intervenção e Desenvolvimento Organizacional'. ISMAT - Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes.

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