segunda-feira, 15 de junho de 2026

Disciplina, propósito e transformação - Book reviwe por Rui Marreiros, do livro "O monge que vendeu sua ferrari"



 

Licenciatura em Gestão de Empresas- 2º ano 2º semestre

UC: Técnicas de Negociação, Liderança e Motivação

Docente: Patrícia Araújo

“O monge que vendeu a sua ferrari” - Robin Sharma

 

 

Figura 1- Capa do livro “O monge que vendeu a sua ferrari”

Discente: Rui Marreiros - A22403261

 

  

 

 Sobre o autor:

Robin S. Sharma é um dos mais reconhecidos especialistas mundiais em liderança pessoal e organizacional. Nascido no Canadá, formou-se em Direito pela Dalhousie University e exerceu a advocacia antes de se dedicar inteiramente ao desenvolvimento pessoal.

Fundou a Sharma Leadership International Inc., empresa de consultoria e formação que já prestou serviços a algumas das maiores organizações do mundo, incluindo empresas da Fortune 500.

O monge que vendeu a sua Ferrari foi originalmente autopublicado em 1997 e hoje está traduzido em mais de 42 idiomas, tornando-se um fenómeno editorial global.


Figura 2- Robin S. Sharma, autor "O monge que vendeu sua ferrari"

 

Resumo do livro:

A narrativa é construída em torno de Julian Mantle, um advogado de sucesso brilhante terno italiano de três mil dólares, Ferrari vermelha, festas intermináveis que colapsa em pleno tribunal, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Confrontado com a sua mortalidade, Julian abandona tudo e parte numa peregrinação à região do Himalaia, em Sivana, onde encontra um grupo de sábios yogues.

Três anos depois, regressa transformado: mais jovem na aparência, sereno no espírito e portador de uma filosofia de vida codificada nos Sete Ensinamentos de Sivana. Partilha então esses ensinamentos com o seu colega e narrador da história, John, numa noite prolongada de revelações.

A obra é essencialmente uma fábula filosófica que utiliza símbolos mnemônicos, o jardim, o farol, o lutador de sumo, o cabo de fios cor-de-rosa, o cronómetro de ouro, as rosas amarelas e o trilho de diamantes, para transmitir princípios de desenvolvimento pessoal aplicáveis tanto à vida pessoal como ao contexto profissional.


Os sete ensinamentos Sivana:

O coração filosófico do livro está encapsulado numa fábula mística que o Iogue Raman partilha com Julian na cordilheira do Himalaia. Nessa fábula, sete símbolos surgem em sequência num jardim imaginado, e cada um deles representa uma virtude atemporal para uma vida plena.

O próprio Sharma reconhece que esta estrutura mnemónica é intencional: ao ligar ideias abstractas a imagens vívidas e improváveis, um lutador de sumo nu num jardim florido, um cabo de fios cor-de-rosa, o leitor memoriza os ensinamentos de forma involuntária. É um recurso pedagógico antigo, presente nas tradições orais de inúmeras culturas, e Sharma usa-o com eficácia. Apresentam-se de seguida os sete ensinamentos e o seu significado essencial.

1.  O Jardim Magnífico — Domina a tua Mente

O jardim é a metáfora central da obra e representa a mente humana. Tal como um jardim abandonado é rapidamente invadido por ervas daninhas, uma mente sem cultivo torna-se refém de pensamentos negativos, preocupações e medos sem fundamento. Sharma afirma que a maioria das pessoas tem cerca de 60 mil pensamentos por dia e que 95% são iguais aos do dia anterior, criando ciclos mentais empobrecedores. O primeiro ensinamento é, portanto, o mais fundamental: a qualidade da vida exterior começa sempre na qualidade dos pensamentos interiores. Técnicas como a visualização, a meditação e o Coração da Rosa (foco intenso num único objeto para treinar a concentração) são propostas como ferramentas práticas.

2.  O Farol — Corre Atrás do teu Objetivo

O farol, erguido no centro do jardim, simboliza o propósito e a clareza de objetivos. Para Sharma, uma vida sem direção é como navegar sem bússola: pode haver movimento, mas não há destino. O segundo ensinamento defende que definir metas claras pessoais, profissionais e espirituais, é o que separa quem existe de quem verdadeiramente vive. A obra propõe o Método dos cinco passos para conquistar objetivos, e o exercício de Autoanálise, como mecanismos para manter o foco e a motivação ao longo do tempo. Este ensinamento tem uma ressonância direta com a gestão por objetivos e com o conceito de visão estratégica pessoal.

3.  O Lutador de Sumo — Prática o Kaizen

O colossal lutador de sumo representa o conceito japonês de kaizen, melhoria contínua e sem fim. Sharma argumenta que a grandeza não nasce de grandes gestos esporádicos, mas da disciplina de melhorar 1% todos os dias em todas as dimensões da vida: física, mental, emocional e espiritual. O autodomínio é apresentado como o alicerce de qualquer transformação duradoura: quem não consegue governar-se a si próprio dificilmente conseguirá contribuir de forma consistente para os outros ou para uma organização. Este ensinamento é provavelmente o que mais se ouve na literatura de gestão contemporânea, aproximando-se da filosofia de melhoria contínua amplamente aplicada em contextos de qualidade organizacional.

4.  O Cabo Elétrico Cor-de-Rosa — Vive com Disciplina

O cabo elétrico, composto por inúmeros fios finos que juntos conduzem uma corrente poderosa, é a metáfora da disciplina individualmente, cada pequeno hábito parece insignificante, mas a sua soma cria uma força transformadora. Sharma defende que a disciplina não é uma forma de punição ou de privação é, pelo contrário, a condição de liberdade. São as pessoas mais disciplinadas que têm mais tempo, mais energia e mais capacidade de escolha. A obra propõe rituais matinais e rotinas intencionais como forma de construir esta disciplina gradualmente, numa lógica que antecipa o que James Clear viria a sistematizar décadas mais tarde em "Atomic habits" (2018).

5.  O Cronómetro Dourado — Respeita o teu Tempo

O relógio de ouro encontrado pelo lutador de sumo simboliza o tempo como o recurso mais precioso e irrecuperável da existência humana. Ao contrário do dinheiro ou da saúde, o tempo perdido não se recupera. Sharma propõe a Regra antiga dos 20 (concentrar 80% do esforço nas 20% de atividades verdadeiramente importantes, numa aplicação do princípio de Pareto), a Mentalidade de Leito de Morte (imaginar o fim de vida para clarificar o que realmente importa hoje) e a coragem de dizer "não" a tudo o que drena energia sem retorno. Este ensinamento é dos mais práticos e diretamente aplicáveis em contexto profissional, onde a gestão da atenção e das prioridades é uma competência crítica.

6.  As Rosas Amarelas — Serve os Outros Altruisticamente

As rosas que revitalizam o lutador inconsciente representam o poder do serviço e da contribuição aos outros. Sharma defende que a verdadeira felicidade não reside na acumulação, mas na doação quem vive apenas para si mesmo empobrece inevitavelmente, enquanto quem contribui para o bem dos outros encontra um sentido mais profundo e duradouro. Este ensinamento tem um paralelismo claro com a teoria da autodeterminação de Deci e Ryan, que identifica a relacionalidade como uma das três necessidades psicológicas básicas para o florescimento humano. Em contexto organizacional, traduz-se numa liderança de serviço e numa cultura de entreajuda que, segundo a investigação, se correlaciona positivamente com o desempenho e com a retenção de talento.

7.  O Caminho de Diamantes — Abraça o Presente

O trilho coberto de diamantes que o lutador encontra depois de acordar é a imagem mais poética do livro e representa a ideia de que a vida de cada um já está repleta de tesouros, se aprendermos a vê-los. O sétimo e último ensinamento é um convite à atenção plena e à gratidão pelo momento presente, em oposição à armadilha de adiar a felicidade para quando se atingir o próximo objetivo. Sharma recupera aqui uma sabedoria transversal a muitas tradições filosóficas e espirituais do budismo ao estoicismo e que a psicologia positiva contemporânea tem vindo a validar empiricamente a capacidade de saborear o presente, o chamado savoring, é um dos preditores mais consistentes de bem-estar subjetivo.

 

 

Análise crítica:

A grande virtude de Sharma reside na sua capacidade de empacotar filosofias ancestrais, do estoicismo ao budismo zen, passando pelo pensamento positivo americano, numa narrativa acessível e de leitura fluida.

O livro não pretende ser um tratado académico, é, antes, um guia prático disfarçado de novela, o que explica o seu alcance popular. Os sete ensinamentos constituem, no fundo, um sistema coerente de autodisciplina, propósito e gestão da atenção, temas que continuam extraordinariamente relevantes num mundo marcado pela sobrecarga informacional e pelo presentismo organizacional.

Em particular, os capítulos dedicados à disciplina da mente e ao tempo como recurso insubstituível dialogam diretamente com literaturas contemporâneas de gestão, como as obras de Cal Newport sobre deep work ou os estudos sobre mindfulness em contexto organizacional.

A ideia central de que o sucesso exterior sem equilíbrio interior é uma ilusão dispendiosa antecipa, de certa forma, o debate contemporâneo sobre burnout e bem-estar no trabalho, como documentado pela Organização Mundial da Saúde, ao classificar o burnout como fenómeno ocupacional.

 

Do ponto de vista crítico, o livro pode ser questionado pela sua superficialidade filosófica, os ensinamentos, embora inspiradores, raramente mergulham em profundidade nos seus fundamentos teóricos.

A linearidade excessiva da fábula e o tom por vezes didático e repetitivo podem causar alguma impaciência no leitor mais exigente. Acresce que a figura central de Julian, o sujeito que literalmente abandona tudo para se encontrar, pouco se adequa à realidade da maioria dos trabalhadores e gestores que não têm essa possibilidade. Nesse sentido, a obra deve ser lida como fonte de inspiração e reflexão, não como manual prescritivo.

 

Ligação à Unidade Curricular:

A leitura desta obra adquire uma dimensão particularmente rica quando enquadrada nos conteúdos abordados na unidade curricular de Técnicas de Negociação, Liderança e Motivação. O colapso de Julian Mantle pode ser lido como uma metáfora poderosa de resistência à mudança: durante anos, o protagonista acumulou sinais de desgaste, perda de propósito, deterioração do desempenho, vazio existencial, mas continuou a negar a necessidade de transformação. Este mecanismo de negação é amplamente estudado na literatura de gestão da mudança, nomeadamente no modelo de Kübler-Ross aplicado às organizações.

A posterior jornada de Julian corresponde a uma fase de desenvolvimento intencional, que evidencia os princípios do desenvolvimento organizacional centrado no indivíduo. Tal como o modelo de Kurt Lewin propõe “descongelar, mudar e recongelar”, Julian passa por um processo análogo:o colapso físico descongela as suas certezas, a estadia em Sivana representa a fase de aprendizagem e transformação, e o regresso ao mundo traduz a consolidação de uma nova identidade. Para os futuros gestores de recursos humanos, compreender que a mudança pessoal precede e habilita a mudança organizacional é uma das lições mais transponíveis deste livro.

A ênfase que Sharma coloca no propósito como motor de desempenho também dialoga com abordagens contemporâneas de gestão de pessoas, como a liderança transformacional e a teoria da autodeterminação de Deci e Ryan, que sublinham a importância da motivação intrínseca. Pode consultar-se o portal da teoria da autodeterminação para aprofundar esta ligação teórica.

Reflexão como viewer:

Escolhi este livro porque o título sempre me chamou à atenção devido à ideia desafiante de alguém que, no auge do sucesso material, decide abandonar tudo. A leitura superou as minhas expectativas iniciais não porque o livro seja perfeito, mas porque me forçou a questionar as minhas próprias prioridades e a forma como distribuo a minha atenção entre o que é urgente e o que é verdadeiramente importante.

O ensinamento que mais me marcou foi o da gestão do tempo como reflexo dos nossos valores mais profundos o tempo que damos a algo revela o que, de facto, valorizamos. Esta ideia, aparentemente simples, desafia-me enquanto futuro profissional, a pensar nas organizações não apenas como sistemas de produção, mas como comunidades de pessoas que procuram significado no seu trabalho diário.

Como gestor, levarei daqui a convicção de que o desenvolvimento das pessoas não começa em formações ou avaliações de desempenho, começa na clareza do propósito individual e na criação de condições organizacionais para que esse propósito floresça. Esta obra é, nesse sentido, um convite à reflexão que recomendo a qualquer pessoa que trabalhe com e para pessoas.

 

Sobre mim:

Olá, o meu nome é Rui Marreiros, sou estudant do 2º ano da licenciatura em Gestão de Empresas no ISMAT. 

Esta book review revelou a importância que mesmo através de uma fábula filosófica, conseguimos aprender princípios de desenvolvmento pessoal, aplicáveis tanto à vda pessoal como ao contexto profissional.

EMAIL: 


EMAIL: ruismarreiros@gmail.com

 

Rui Marreiros

Estudante de gestão de empresas no ISMAT.

E-mail: ruismarreiros@gmail.com

Referências Bibliográficas:

ISMAT- Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes: https://www.ismat.pt/

Sharma, R. S. (2011). O monge que vendeu sua Ferrari (G. Zide, Trad.). Editora Objetiva. (Obra original publicada em 1997)

World Health Organization. (2019). Burn-out an 'occupational phenomenon': International Classification of Diseases. https://www.who.int/news/item/28-05-2019-burn-out-an-occupational-phenomenon-international-classification-of-diseases

Deci, E. L., & Ryan, R. M. (1985). Intrinsic motivation and self-determination in human behavior. Plenum. https://selfdeterminationtheory.org

Lewin, K. (1951). Field theory in social science. Harper & Row.

Newport, C. (2016). Deep work: Rules for focused success in a distracted world. Grand Central Publishing.

 

Caro/a Leitor, para citar está book Review, use esta referência final:

 Marreiros, R (2026). Disciplina, propósito e transformação- Book review de “O monge que vendeu a sua ferrari” Book Review Orientada por PhD Patrícia Araújo no âmbito da unidade curricular de “Técnicas de Negociação, Liderança e Motivação”. ISMAT-Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes. Disponível em: https://desenvolvimento-organizacional.blogspot.com/

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